{"id":2289,"date":"2021-07-25T18:14:15","date_gmt":"2021-07-25T21:14:15","guid":{"rendered":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/?p=2289"},"modified":"2021-07-25T18:15:11","modified_gmt":"2021-07-25T21:15:11","slug":"meu-querido-armario-minha-adoravel-cama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/2021\/07\/25\/meu-querido-armario-minha-adoravel-cama\/","title":{"rendered":"Meu querido arm\u00e1rio, minha ador\u00e1vel cama\u2026"},"content":{"rendered":"\n<p><br>Jober Rocha<br>Todos aqueles que prestaram servi\u00e7o militar \u00e0s For\u00e7as Armadas, com certeza, lembrar-se-\u00e3o, como eu e com saudades, do velho arm\u00e1rio e da velha cama que possu\u00edam nas organiza\u00e7\u00f5es em que foram servir ao ingressarem na carreira das armas. \u00danicos bens dur\u00e1veis de que disp\u00fanhamos naquela oportunidade (embora por comodato e por pouco tempo), eles substitu\u00edam o arm\u00e1rio e a cama que t\u00ednhamos em nossas casas e constitu\u00edam o ref\u00fagio de qualquer jovem militar quando, com saudades da fam\u00edlia, neles se abrigava para contemplar algumas fotos, esquecer as agruras do dia, lembrar-se dos entes queridos ou com eles sonhar. \u00c0s vezes, a cama estava situada pr\u00f3xima do arm\u00e1rio e outras vezes localizada distante do mesmo. O arm\u00e1rio, de madeira ou de metal, possu\u00eda, quase sempre, cerca de um metro e oitenta de altura, por sessenta cent\u00edmetros de largura e cinquenta de profundidade, al\u00e9m de um n\u00famero de ordem localizado em cima da porta. Nele teriam de caber todas as posses do jovem militar (relativamente poucas em valor monet\u00e1rio, mas muitas em quantidade f\u00edsica), que disputavam entre si um lugar definitivo e confort\u00e1vel naquele espa\u00e7o t\u00e3o pequeno.<br>Dentro dos arm\u00e1rios n\u00e3o havia gavetas, mas, sim, prateleiras onde os uniformes militares e as roupas civis deveriam ficar, todas limpas e bem arrumadas. A arruma\u00e7\u00e3o era fundamental para que coubesse tudo em t\u00e3o reduzido espa\u00e7o.<br>Na prateleira de cima, a primeira delas, costumavam ficar os quepes e os gorros (ou casquetes), as platinas (ombreiras ou divisas) e o capacete de fibra. Na prateleira de baixo (a segunda e que era maior do que as demais), ficavam pendurados em um travess\u00e3o, o uniforme de passeio, a japona, o terno civil, algum casaco civil, camisas civis e camisas de manga comprida usadas com o uniforme externo. Na terceira prateleira ficavam as camisas militares de manga curta, as camisetas e os cal\u00e7\u00f5es de gin\u00e1stica, bem como as sungas de nata\u00e7\u00e3o. Na quarta ficavam as meias, as cuecas, as blusas e ceroulas, as toalhas de banho e de rosto, como tamb\u00e9m os pijamas. Na quinta e \u00faltima prateleira ficavam as sapatilhas de gin\u00e1stica, os borzeguins, a bota preta, o sapato preto do uniforme externo e o sapato de uso civil. Na porta dos arm\u00e1rios existiam dois ou tr\u00eas compartimentos onde eram guardadas as escovas de dente, a pasta, o sabonete, o papel higi\u00eanico, a graxa de sapatos, a escova de polir, as ins\u00edgnias e a latinha de Kaol (polidor de fivelas). Na porta existia, ainda, um local para pendurar os cintos, cintur\u00f5es e gravatas do uniforme externo.<br>Basicamente, em tudo isto se constitu\u00eda, oficialmente, o arm\u00e1rio de um militar no meu tempo. Entretanto, extraoficialmente, os arm\u00e1rios comportavam alguns outros itens: as fotos de familiares, de namoradas, de mulheres nuas, os ma\u00e7os de cigarros, os talheres e canecas emprestados do rancho, as latas de doce recebidas de casa e enviadas pelas m\u00e3es, os pacotes de biscoito, as cartas de parentes e das namoradas, etc.<br>Alguns veteranos possu\u00edam dois ou, at\u00e9 mesmo, tr\u00eas arm\u00e1rios.<br>Aqueles militares que eram desligados e aqueles que pediam seu desligamento, por alguma raz\u00e3o particular, durante o ano letivo, tinham de desocupar os arm\u00e1rios e entreg\u00e1-los de volta. Estes arm\u00e1rios vagos, logo em seguida, seriam ocupados por alguns veteranos \u2018mais espertos\u2019, que os utilizavam para desafogar o arm\u00e1rio original.<br>As camas que os militares possu\u00edam (tamb\u00e9m de madeira ou de metal, como os arm\u00e1rios) deveriam ser impecavelmente arrumadas todas as manh\u00e3s. Um len\u00e7ol colocado sobre o colch\u00e3o, um cobertor sobre o len\u00e7ol, uma colcha sobre o cobertor e outro cobertor arrumado aos p\u00e9s da cama. A revista de camas era feita pelo oficial de dia, que anotava aquelas mal arrumadas para uma eventual puni\u00e7\u00e3o dos seus respectivos ocupantes. Nas cabeceiras das camas de todos os militares estavam presentes os mesmos n\u00fameros de ordem que constavam nas portas dos arm\u00e1rios. Naquelas camas, logo ap\u00f3s o toque do sil\u00eancio (executado muitas vezes com maestria pelo cora\u00e7\u00e3o do corneteiro e apenas soprado pela sua boca, tal era a emo\u00e7\u00e3o que conseguia transmitir \u00e0quele toque), sonh\u00e1vamos com as nossas namoradas, com os nossos futuros, com as nossas m\u00e3es, pais e irm\u00e3os. Daquelas camas teim\u00e1vamos em n\u00e3o querer sair nos dias frios de inverno. Naquelas camas resson\u00e1vamos noite adentro, sonhando com batalhas e combates, sob os olhares atentos do plant\u00e3o da hora que, em algumas ocasi\u00f5es, tamb\u00e9m ressonava em seu posto.<br>Aquela era a nossa verdadeira casa, onde t\u00ednhamos aquilo tudo de que necessit\u00e1vamos como jovens: um arm\u00e1rio, uma cama, uma namorada e dezenas de amigos. Quem dera que a vida de todos n\u00f3s continuasse eternamente assim, sem sofrimentos, sem mortes, sem desilus\u00f5es, sem trai\u00e7\u00f5es, sem desaven\u00e7as. Quem dera que continu\u00e1ssemos, para sempre, acreditando nos valores morais e \u00e9ticos que ali aprend\u00edamos e que pass\u00e1vamos a cultuar como militares ou como civis (ap\u00f3s deixar a caserna), pelo resto de nossas vidas, palco de tantos sacrif\u00edcios e abnega\u00e7\u00f5es; por\u00e9m, por outro lado, de tantas alegrias e felicidades. Quem dera que a vida n\u00e3o tivesse se encarregado de nos mostrar que muitos seres humanos n\u00e3o balizam suas exist\u00eancias por aqueles valores que nos foram ensinados a cultuar e a cultivar na vida militar (tais como a coragem, a lealdade, a honestidade, a justi\u00e7a, a dignidade, o patriotismo, etc.), fazendo com que, em muitas ocasi\u00f5es, nos sent\u00edssemos como verdadeiras ilhas em um oceano de v\u00edcios e de m\u00e1s inten\u00e7\u00f5es.<br>Infelizmente, muitos daqueles nossos companheiros de alojamento tiveram suas exist\u00eancias abreviadas, seja desempenhando miss\u00f5es como militares, seja em suas atividades na vida civil. Entretanto, resta-nos sempre o consolo de saber que n\u00e3o convivemos todos juntos no per\u00edodo mais importante de nossas vidas, por um simples e desarrazoado acaso; j\u00e1 que, segundo alguns fil\u00f3sofos e religiosos, este n\u00e3o existe. As amizades surgidas e consolidadas na vida militar ser\u00e3o, certamente, eternas (se n\u00e3o quando ainda encarnados, ao menos quando j\u00e1 desencarnados). Os nossos esp\u00edritos de companheiros de caserna (estou plenamente convencido disto), para sempre se reconhecer\u00e3o, seja em outras exist\u00eancias, seja em outras dimens\u00f5es ou planos de exist\u00eancia, conforme a cren\u00e7a de cada um. Acredito que estes meus sentimentos sejam comungados por todos aqueles que passaram por alguma\u00a0 Organiza\u00e7\u00e3o Militar brasileira, mesmo que por apenas alguns meses; bem como, sejam sentimentos tamb\u00e9m reconhecidos e esposados por qualquer militar ou ex-militar, seja de qualquer pa\u00eds do mundo. Ao relembrar aqueles tempos de incr\u00edvel felicidade em que o mundo me pertencia, quando ainda desconhecia o que o destino me reservava e podia contar com meus pais e irm\u00e3os ao lado, me vejo tomado pela emo\u00e7\u00e3o e, com l\u00e1grimas nos olhos, agrade\u00e7o ao Criador a gra\u00e7a que me proporcionou de ter vivido a vida que vivi.<br><br><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/bandao70.blogspot.com\/2014\/11\/meu-querido-armario-minha-amada-cama.html\">http:\/\/bandao70.blogspot.com\/2014\/11\/meu-querido-armario-minha-amada-cama.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jober RochaTodos aqueles que prestaram servi\u00e7o militar \u00e0s For\u00e7as Armadas, com certeza, lembrar-se-\u00e3o, como eu e com saudades, do velho arm\u00e1rio e da velha cama que possu\u00edam nas organiza\u00e7\u00f5es em que foram servir ao ingressarem na carreira das armas. \u00danicos bens dur\u00e1veis de que disp\u00fanhamos naquela oportunidade (embora por comodato e por pouco tempo), eles&hellip;&nbsp;<a href=\"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/2021\/07\/25\/meu-querido-armario-minha-adoravel-cama\/\" class=\"\" rel=\"bookmark\">Ler mais &raquo;<span class=\"screen-reader-text\">Meu querido arm\u00e1rio, minha ador\u00e1vel cama\u2026<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"neve_meta_sidebar":"","neve_meta_container":"","neve_meta_enable_content_width":"","neve_meta_content_width":0,"neve_meta_title_alignment":"","neve_meta_author_avatar":"","neve_post_elements_order":"","neve_meta_disable_header":"","neve_meta_disable_footer":"","neve_meta_disable_title":"","footnotes":""},"categories":[11],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2289"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2289"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2289\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2292,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2289\/revisions\/2292"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2289"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2289"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2289"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}