{"id":4201,"date":"2022-09-28T05:30:00","date_gmt":"2022-09-28T08:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/?p=4201"},"modified":"2022-09-27T11:11:21","modified_gmt":"2022-09-27T14:11:21","slug":"lembranca-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/2022\/09\/28\/lembranca-28\/","title":{"rendered":"Lembran\u00e7a 28"},"content":{"rendered":"\n<p>S\u00e9rie Sobre UNAVEM III<br>Por Iber\u00ea Mariano da Silva (\u25aa)<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2\u00aa parte<br>O BATALH\u00c3O<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ao chegarmos no corpo da guarda da sede do BRABAT, recebemos todo protocolo usual.<\/p>\n\n\n\n<p>A seguir, fomos conduzidos a um palanque \u00e0 frente da tropa formada.<\/p>\n\n\n\n<p>Recebemos as honras e o Cel \u00c1lvaro proferiu umas palavras em agradecimentos e incentivos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s fomos levados para uma sala aonde o Cel Ademar, Comandante do Batalh\u00e3o, fez uma palestra situacional do trabalho e emprego da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Descri\u00e7\u00e3o e Instala\u00e7\u00f5es<br>&nbsp;<br>A sede do batalh\u00e3o estava situada em Kuito e muito bem instalada.<\/p>\n\n\n\n<p>Acantonada em um posto de transbordo de ferrovia para rodovia de petr\u00f3leo e seus derivados, foram aproveitadas muito bem as facilidades ainda inteiras.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; .&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br>O Batalh\u00e3o era praticamente auto suficiente, pois possu\u00eda lavanderia, padaria, cozinha bem montada, frigor\u00edfico, tratamento de \u00e1gua, gera\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, oficinas mec\u00e2nicas, posto m\u00e9dico completo, laborat\u00f3rio de an\u00e1lises cl\u00ednicos, farm\u00e1cia, pai\u00f3is, gabinete odontol\u00f3gico, capela, comunica\u00e7\u00f5es via sat\u00e9lite, pequenos clubes, locais de recrea\u00e7\u00e3o, esta\u00e7\u00e3o de r\u00e1dio amador, alojamentos, rede de \u00e1gua, rede de esgoto, rede el\u00e9trica, arruamento e at\u00e9 mesmo&nbsp; pequenos jardins.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00e3o ser o alojamento das Pra\u00e7as, as instala\u00e7\u00f5es estavam contidas em cont\u00eainer.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos muito bem ajeitados e adaptados \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es, denotavam um cuidado todo especial n\u00e3o s\u00f3 pelo pessoal que l\u00e1 o montara, mas sobretudo, um planejamento que o levou a uma execu\u00e7\u00e3o eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Comparando com outros aquartelamentos similares, verificava-se uma flagrante superioridade e mexia no interior da gente dando n\u00f3s orgulho de nossa tropa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo era muito arrumado e limpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos cumpriam seu dever sem muita necessidade de interven\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Tornaram-se profissionais amadurecidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo funcionava muito bem engrenado.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram raras as surpresas.<\/p>\n\n\n\n<p>O administrador do aquartelamento (3\u2070 escal\u00e3o), com pequenos retoques aqui e ali, do amanhecer at\u00e9 alta madrugada mantinha tudo orquestrado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas dois problemas negativos me chamaram a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um foi o cabo antena do transceptor de grande pot\u00eancia passar sobre as barracas das Pra\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>O outro foi de n\u00e3o haver blindagem em locais com aparelhos radiol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>O Material e seus problemas visto pelo combatente.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<br>N\u00e3o houve um intuito de se verificar defici\u00eancia de manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfoque dado, foi o de analisar defeitos cong\u00eanitos no material, ou seja, aqueles que dificultavam a tropa no seu desempenho operacional e estavam presentes em mais de 20% das unidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isto com a finalidade de facilitar a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho, ele ser\u00e1 dividido por tipo de MEM.<\/p>\n\n\n\n<p>VIATURAS<\/p>\n\n\n\n<p>A pintura de branco, em geral feita sobre o verde camuflado, descascava.<\/p>\n\n\n\n<p>Possivelmente faltou uma melhor prepara\u00e7\u00e3o da superf\u00edcie antes da pintura.<\/p>\n\n\n\n<p>As viaturas Mercedes, por terem os vidros dianteiros curvos, em deslocamentos em terrenos irregulares os mesmos rachavam.<\/p>\n\n\n\n<p>As Viaturas Multimodais (com m\u00f3dulos de cisterna de \u00e1gua, cisterna de combust\u00edvel, cont\u00eainer e material) possuem v\u00e1rios pontos que t\u00eam de ser repensados.<\/p>\n\n\n\n<p>A alavanca de transmiss\u00e3o do comando para a caixa que aciona o mecanismo que traciona os m\u00f3dulos quebra.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto possivelmente deve-se ao \u00e2ngulo muito acentuado que trabalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00f3dulos em sua posi\u00e7\u00e3o de tr\u00e2nsito n\u00e3o s\u00e3o presos com seguran\u00e7a sobre o chassi.<\/p>\n\n\n\n<p>O terreno irregular faz com que o m\u00f3dulo pule no sentido vertical, provocando mossas sobre os roletes.<\/p>\n\n\n\n<p>A trava que impede que o m\u00f3dulo deslize por sobre o chassi \u00e9 feita em um s\u00f3 ponto, e mesmo assim descentralizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto fez com que a longarina do m\u00f3dulo acabasse por se soltar, e toda hora necessitasse de ser ressoldada.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas viaturas tinham um trabalho de reabastecimento da se\u00e7\u00e3o de tratamento de \u00e1gua 24 horas por dia, pois esta al\u00e9m de fornecer \u00e1gua pot\u00e1vel para a sede do Batalh\u00e3o, abastecia o Hospital Vietnamita e a creche da cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O Jeep JPX teve uma adapta\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, sem muita engenharia, para portar o canh\u00e3o 106 SR.<\/p>\n\n\n\n<p>Ficou com o CG muito alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Em consequ\u00eancia, ficou com sua estabilidade comprometida.<\/p>\n\n\n\n<p>O ret\u00e9m do canh\u00e3o tendia a soltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Como s\u00f3 saiam raramente, e mesmo assim, em estradas razoavelmente boas, o risco de capotamento ficou reduzido.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o eram de confian\u00e7a total.<\/p>\n\n\n\n<p>A empilhadeira era uma pe\u00e7a fundamental para os trabalhos do Batalh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua lan\u00e7a, por\u00e9m, era muito curta para a maioria das miss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi feita, como \u201cquebra-galho\u201d uma prolonga.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta, constru\u00edda a partir do improviso e da necessidade, n\u00e3o foi calculada.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a das possibilidades de massas envolvidas, bra\u00e7os de alavanca, CG, acrescido do material empregado para construir a prolonga, poderia a vir causar acidentes graves.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma Viatura muito interessante era uma pertencente a Companhia de Desminagem da Fran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Possivelmente fabricada na \u00c1frica do Sul, ela possui como fundo uma chapa de 5 cm de espessura em forma de \u201cV\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela \u00e9 blindada e as suas rodas e eixos externos \u00e0 blindagem s\u00e3o de troca f\u00e1cil e r\u00e1pida.<\/p>\n\n\n\n<p>As picapes Toyota apresentaram um defeito cong\u00eanito que levava a um cont\u00ednuo ajuste da folga da dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu guincho n\u00e3o era robusto sob o ponto de vista operacional, ficando grande percentagem inoperante.<\/p>\n\n\n\n<p>O pedestal feito para servir de base para o transceptor vibrava muito e suas fixa\u00e7\u00f5es estavam subdimensionadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O amortecedor da base do r\u00e1dio ERC 202 n\u00e3o \u00e9 suficiente para os trancos que a viatura recebia fruto das vias esburacadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltavam detalhes para facilitar o operador, tal como, local apropriado para o combinado quando em repouso.<\/p>\n\n\n\n<p>A base para antena do r\u00e1dio, que excedia a largura da viatura estavam quase sempre amassadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo constou, foi necess\u00e1rio na instala\u00e7\u00e3o da sede, a certifica\u00e7\u00e3o da desminagem completa do terreno.<\/p>\n\n\n\n<p>Para isto, os Urutu (EE11) e Cascavel (EE9) foram utilizados para puxar um tren\u00f3 especial que revolvia o solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Fruto disto, ainda segundo consta, est\u00e1 a origem do problema excessivo que ocorreram nos diferenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema crucial dos EE9 e EE11, em Angola, era a falta de suprimento.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00e1tica de canibalismo para manter a operacionalidade teve que ser empregada.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveitando uma patrulha at\u00e9 o Rio Kune, tive a oportunidade de seguir de perto os problemas operacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro deles foi a incerteza do ir e voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>A Vtr engui\u00e7ou.<\/p>\n\n\n\n<p>Arrebentou o cabo do acelerador.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais uma Vtr canibalizada para que a miss\u00e3o pudesse prosseguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Para melhor avalia\u00e7\u00e3o, dirigi o Urutu, me portei como atirador e como fuzileiro embarcado.<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista quando dirige a Vtr sob chuva, arma uma esp\u00e9cie de pequena tenda que se estende a partir do para-brisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o impede que \u00e1gua entre pelas laterais e molhe a nuca do motorista e escorra pela coluna vertebral encharcando suas costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma verdadeira tortura.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve ser repensada uma solu\u00e7\u00e3o, tal como uma nacele.<\/p>\n\n\n\n<p>Os bancos s\u00e3o voltados para o interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, se houvesse um banco no centro do carro, costa contracosta, como eram as antigas viaturas choques da PE, ficaria facilitada a resposta de fogo atrav\u00e9s das seteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Falta um local para fixar o cano sobressalente da Mtr.50 que fica rolando de um lado para o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>A tropa n\u00e3o tinha confian\u00e7a nos freios de estacionamento dos blindados EE.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda parada era seguida de um quase ritual de antes de desligar o motor, qual seja saltar e colocar uma pedra na frente das rodas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a caixa n\u00e3o \u00e9 a mec\u00e2nica, que estavam habituados, nem o recurso de deixar engrenado era utiliz\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Reunidos todas Guarni\u00e7\u00f5es dos URUTU e CASCAVEL para ouvi-los sobre pontos de interesse a fim de melhorar as viaturas blindadas do ponto de vista operacional, as seguintes opini\u00f5es coincidiram por unanimidade:<\/p>\n\n\n\n<p>Existe muita dificuldade para trocar a nova caixa de mudan\u00e7a;<\/p>\n\n\n\n<p>A linha de ar comprimido vaza muito;<\/p>\n\n\n\n<p>O eixo da caixa de descida se quebra com muita facilidade;<\/p>\n\n\n\n<p>O freio de estacionamento n\u00e3o segura o ve\u00edculo em rampas mesmos inferiores a 20%;<\/p>\n\n\n\n<p>Falta veda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Entra \u00e1gua quando navegando.<\/p>\n\n\n\n<p>Entra \u00e1gua de chuva;<\/p>\n\n\n\n<p>Acentuado \u201cshiming\u201d na dire\u00e7\u00e3o;<\/p>\n\n\n\n<p>Falta um local para colocar o cano sobressalente da Mtr.50;<\/p>\n\n\n\n<p>O motorista necessita de prote\u00e7\u00e3o quando a escotilha est\u00e1 aberta;<\/p>\n\n\n\n<p>Seria interessante dotar todos os carros com a caixa ALLISON MT 643;<\/p>\n\n\n\n<p>Seria interessante uma Torreta no URUTU;<\/p>\n\n\n\n<p>Seria interessante um olhal para camb\u00e3o e outras utilidades;<\/p>\n\n\n\n<p>Para rebocar um EE, s\u00f3 com camb\u00e3o r\u00edgido.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria bom t\u00ea-lo;<\/p>\n\n\n\n<p>Em terreno pastoso, simplesmente abaixar a press\u00e3o do pneu n\u00e3o adianta.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria bom ter corrente pelo menos para as rodas dianteiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Os reboques n\u00e3o eram normalmente usados.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o era bom dirigir com eles em estrada normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram uma preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o compensadora em estradas ruins.<\/p>\n\n\n\n<p>Sentia-se a necessidade de uma Vtr Socorro de maior capacidade.<\/p>\n\n\n\n<p>As pranchas com respectivos cavalos mec\u00e2nicos respondiam \u00e0 altura.<\/p>\n\n\n\n<p>ARMAMENTO.<\/p>\n\n\n\n<p>Raramente utilizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada p\u00f4de se deduzir.<\/p>\n\n\n\n<p>Apenas s\u00e3o portados.<\/p>\n\n\n\n<p>Poderiam ter menor porte e serem mais leves.<\/p>\n\n\n\n<p>COMUNICA\u00c7\u00d5ES.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos r\u00e1dios (tipo Handtalk) fabricados pela IMBEL, de pega dif\u00edcil por ter as quinas retas, estavam inoperantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ERC 202 funcionavam bem, quando se acertava a imped\u00e2ncia na base da antena (na \u00e9poca o acerto era manual).<\/p>\n\n\n\n<p>ENGENHARIA.<\/p>\n\n\n\n<p>Os geradores el\u00e9tricos de pequena pot\u00eancia davam muita pane.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois grandes geradores de 350 KW se reversavam de 12 em 12 horas.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava um de reserva.<\/p>\n\n\n\n<p>Na minha observa\u00e7\u00e3o senti neles uma oscila\u00e7\u00e3o anormal.<\/p>\n\n\n\n<p>O material pesado de Engenharia do BRAENG (Batalh\u00e3o de Engenharia), salvo pequenos problemas, funcionavam bem gra\u00e7as aos excelentes especialistas.<\/p>\n\n\n\n<p>SA\u00daDE.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema maior estava nos minimotores cir\u00fargicos a jato odontol\u00f3gico, que por serem muito fracos, entravam em pane por uso elevado.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia um aparelho de Raio-X defeituoso.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o havia blindagem protegendo as instala\u00e7\u00f5es dos aparelhos radiol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>O resto era de f\u00e1cil e r\u00e1pido reparo.<\/p>\n\n\n\n<p>DIVERSOS<\/p>\n\n\n\n<p>Os videocassetes do entretenimento tinham, em grande parte, o cabe\u00e7ote rotativo danificado devido a intenso uso.<\/p>\n\n\n\n<p>Salvo um, os fog\u00f5es funcionavam a contento.<\/p>\n\n\n\n<p>Os computadores tinham seus problemas de sempre, uns repar\u00e1veis, outros n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As barracas de 10 Pra\u00e7as de lona duravam, no m\u00e1ximo, tr\u00eas meses.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;As minhas andan\u00e7as por Kioto.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando vi que ia sair uma patrulha (dois Urutus e uma picape) com destino a um destacamento no Rio Kune, eu me integrei \u00e0 mesma e levei os dois Sargentos que vieram comigo na miss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>No percurso, um Urutu deu pane.<\/p>\n\n\n\n<p>Arrebentou o cabo do acelerador.<\/p>\n\n\n\n<p>Coloquei o Sgt Mec\u00e2nico para reparar.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntei \u00e0 guarni\u00e7\u00e3o se n\u00e3o iam avisar ao Quartel via r\u00e1dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Me informaram que o r\u00e1dio s\u00f3 funcionavam at\u00e9 dois km.<\/p>\n\n\n\n<p>Coloquei o Sgt de Comunica\u00e7\u00f5es para verificar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s examinar, o Sgt me informou que eles n\u00e3o sintonizavam a imped\u00e2ncia na base da antena, nem sabiam desta necessidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntei \u00e0 guarni\u00e7\u00e3o qual era a frequ\u00eancia, a senha e contrassenha designada para a patrulha.<\/p>\n\n\n\n<p>Me informaram que eram as mesmas desde quando a tropa se instalara em Kuito.<\/p>\n\n\n\n<p>SANTO ERRO OPERACIONAL !<\/p>\n\n\n\n<p>O r\u00e1dio, uma vez agora sintonizado, nos comunicamos diretamente com o Quartel.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegamos no destacamento, as crian\u00e7as locais fizeram um coro e cantaram m\u00fasicas para nos homenagear.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei comovido.<\/p>\n\n\n\n<p>Visitei a r\u00e1dio de Kuito, aonde dei uma pequena entrevista motivacional para os ouvintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui ver a central telef\u00f4nica que ficava numa esp\u00e9cie de reboque, toda perfurada de bala.<\/p>\n\n\n\n<p>A mesma tinha capacidade de 1000 ramais dos quais s\u00f3 30 estavam funcionando.<\/p>\n\n\n\n<p>Consegui reparar parte da mesma e coloquei mais de 300 ramais com capacidade de serem instalados.<\/p>\n\n\n\n<p>Estive na feira livre.<\/p>\n\n\n\n<p>Um horror.<\/p>\n\n\n\n<p>Vendia-se tudo, desde cotoco de l\u00e1pis, pilha semi-usada, panelas de barro, sapatos e sand\u00e1lias velhas, comidas, madeiras de destrui\u00e7\u00f5es e at\u00e9 carne.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo colocado diretamente no ch\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um detalhe, por lei local, toda carne vendida tinha que ter ao lado da mesma, a cabe\u00e7a do animal que fora abatido.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto era para demonstrar que n\u00e3o se tratava de carne humana.<\/p>\n\n\n\n<p>QUE HORROR !<\/p>\n\n\n\n<p>Estive num ex supermercado que tudo que tinha para vender eram 5 latinhas de cerveja e 10 len\u00e7os de cabe\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Passei por um baita gerador de energia que estava sendo descarregado de um caminh\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ajudei os orientando na manobra de for\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Conversei com os t\u00e9cnicos eletricistas e ensinei-lhes que podiam usar os transformadores de 13,8 KV (que eles tinham) ao contr\u00e1rio do usual.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, pegar a energia trif\u00e1sica gerada pelo gerador, lig\u00e1-la na sa\u00edda do transformador e lan\u00e7ar a energia da entrada numa rede de alta-tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo poderiam mandar a energia gerada para mais longe.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles adoraram o conhecimento e passaram a fazer planos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nota importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo lugar que ia, eu era escoltado por v\u00e1rios Soldados.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui visitar uma ex faculdade totalmente sucateada e toda perfurada por balas, aonde, no meio de escombros de salas, in\u00fameras crian\u00e7as estavam tendo aulas.<\/p>\n\n\n\n<p>Angola teve uma imensa desgra\u00e7a de ter tido dois Brizola ao mesmo tempo, enquanto n\u00f3s, pouco mais afortunados, tivemos um s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas felizmente para Angola, eles n\u00e3o tiveram um Paulo Freire na Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a guerra tenha dificultado o crescimento do n\u00famero de professores, chega a ser emocionante entrarmos em uma escola, faltando colunas, paredes cheias de furos causados por obuses, metade do teto ca\u00eddo e encontrarmos um professor sem quadro-negro, giz, papel, mesas, carteiras, dando aula a um amontoado de crian\u00e7as sentadas no ch\u00e3o, interessadas em aprender.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste quadro, aprende-se muito sobre determina\u00e7\u00e3o de um programa, pol\u00edtica s\u00e9ria sem demagogia, cren\u00e7a no futuro, respeito \u00e0 crian\u00e7a e vontade.<\/p>\n\n\n\n<p>A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 livre, mas compuls\u00f3ria para crian\u00e7as entre 7 e 15 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor usava carv\u00e3o para escrever na parede que depois era lavada para apagar.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma \u00fanica folha de papel, por sala, era usada pelas crian\u00e7as, sendo utilizada ao extremo, escrita com um toco de um l\u00e1pis.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 faltava escrever na borda do papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Triste, muito triste.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, um entusiasmo e um extraordin\u00e1rio \u00e2nimo em aprender.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui visitar o Hospital Vietnamita aonde o n\u00famero de membros das pessoas quase se igualava ao n\u00famero das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo devido \u00e0s minas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sa\u00ed chorando.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dado momento, fui comunicado que um General da UNITA queria conversar comigo no aeroporto.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m exerc\u00edamos o papel de diplomatas.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 ele pediu que o seguisse at\u00e9 o meio da pista.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto vieram quatro Soldados dele armados at\u00e9 os dentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mandei que meus seguran\u00e7as se afastassem.<\/p>\n\n\n\n<p>No meio da pista, seus quatro Soldados se deitaram no ch\u00e3o numa configura\u00e7\u00e3o dos quatro pontos cardeais.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed, o General angolano come\u00e7ou sua conversa particular, a qual me lembro de alguns pontos principais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele disse:<\/p>\n\n\n\n<p>A UNITA continua ativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Os contendores continuam se armando e esperam apenas a sa\u00edda da ONU para recome\u00e7ar tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo suas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c- Culpo a comunidade internacional por ter se metido em nossas querelas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois agora ela sai e apenas serviu para dar tempo ao lado que j\u00e1 estava praticamente vencido de se rearmar.<\/p>\n\n\n\n<ul><li>N\u00e3o confundam o nosso problema com o de Mo\u00e7ambique.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>L\u00e1 acabou o dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Angola \u00e9 rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Um lado controla o petr\u00f3leo e o outro controla as minas de diamante.<\/p>\n\n\n\n<ul><li>Nos gostar\u00edamos que os brasileiros ficassem.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Gostamos deles e dos portugueses.<\/p>\n\n\n\n<p>Odiamos os Uruguaios.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Logo em seguida ele me pediu que seus filhos fossem para o Brasil para fins de estudar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me disse ainda que tinha um sonho.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele queria que Angola se tornasse um estado extraterritorial do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu retruquei dizendo que estava muito longe de minhas atribui\u00e7\u00f5es e que em duas semanas, o Presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, visitaria Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>Ocasi\u00e3o esta, que ele poderia lhe exp\u00f4r sua ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>O povo \u00e9 muito am\u00e1vel e dado.<\/p>\n\n\n\n<p>Demonstravam por gestos e palavras sinceras, que apreciavam, acreditavam e confiavam nos Soldados brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O retorno ao Brasil<\/p>\n\n\n\n<p>O C130 pousou nas Ilhas Ascens\u00e3o para reabastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco depois de decolar, o C130 teve uma pane grave.<\/p>\n\n\n\n<p>Apagou\u2013se todo o painel.<\/p>\n\n\n\n<p>Retornamos imediatamente ao aeroporto.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido, possivelmente ao baque na pista ao aterrar, tudo voltou ao normal.<\/p>\n\n\n\n<p>Decolamos novamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O Comandante do avi\u00e3o veio conferenciar comigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Perguntou o que achava da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu lhe dei minha opini\u00e3o que se nada ocorresse at\u00e9 um ter\u00e7o do trajeto, seguir\u00edamos para o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegamos bem e no aeroporto do Gale\u00e3o, e ap\u00f3s minucioso exame e reportarmos individualmente aonde estivemos, fomos liberados.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s entregar o relat\u00f3rio fui conversar com o Gen Lessa, Cmt da 1\u00aa Regi\u00e3o Militar sobre a demanda da tropa de Angola.<\/p>\n\n\n\n<p>Expliquei que a tropa tinha dois meios para se comunicar com familiares.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma era atrav\u00e9s de um sat\u00e9lite cujas taxas eram car\u00edssimas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra forma era atrav\u00e9s do transceptor do Ex\u00e9rcito, e justamente na hora que eles tinham livre para se comunicar, os operadores do transceptor tinham ido almo\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p>O Gen Lessa tomou as medidas necess\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, terminou a miss\u00e3o.<br>&nbsp;<br>&nbsp;<br>.<br>(*) General-de-Brigada Engenheiro Militar Veterano, AMAN Mat Bel 67, Pqdt Militar, Mestre Salto, Guerra na Selva, Graduado (Eng Eletr\u00f4nica) e P\u00f3s-graduado MSc (Nuclear) pelo Instituto Militar de Engenharia (IME) e pela \u00c9cole Nationale Sup\u00e9rieure de l\u2019A\u00e9ronautique et l\u2019Espace (Fran\u00e7a) , diplomado pelo Curso de Pol\u00edtica, Estrat\u00e9gia e Alta Administra\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito (CPEAEx).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9rie Sobre UNAVEM IIIPor Iber\u00ea Mariano da 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A seguir, fomos conduzidos a um palanque \u00e0 frente da tropa formada. Recebemos as honras e o Cel \u00c1lvaro proferiu umas palavras em agradecimentos e incentivos. Ap\u00f3s fomos&hellip;&nbsp;<a href=\"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/2022\/09\/28\/lembranca-28\/\" class=\"\" rel=\"bookmark\">Ler mais &raquo;<span class=\"screen-reader-text\">Lembran\u00e7a 28<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4145,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"neve_meta_sidebar":"full-width","neve_meta_container":"","neve_meta_enable_content_width":"","neve_meta_content_width":0,"neve_meta_title_alignment":"center","neve_meta_author_avatar":"","neve_post_elements_order":"[\"title\",\"meta\",\"content\",\"tags\",\"comments\"]","neve_meta_disable_header":"","neve_meta_disable_footer":"","neve_meta_disable_title":"","footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4201"}],"collection":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4201"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4202,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4201\/revisions\/4202"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4145"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cvmarj.org.br\/site\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}