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Meu querido armário, minha adorável cama…


Jober Rocha
Todos aqueles que prestaram serviço militar às Forças Armadas, com certeza, lembrar-se-ão, como eu e com saudades, do velho armário e da velha cama que possuíam nas organizações em que foram servir ao ingressarem na carreira das armas. Únicos bens duráveis de que dispúnhamos naquela oportunidade (embora por comodato e por pouco tempo), eles substituíam o armário e a cama que tínhamos em nossas casas e constituíam o refúgio de qualquer jovem militar quando, com saudades da família, neles se abrigava para contemplar algumas fotos, esquecer as agruras do dia, lembrar-se dos entes queridos ou com eles sonhar. Às vezes, a cama estava situada próxima do armário e outras vezes localizada distante do mesmo. O armário, de madeira ou de metal, possuía, quase sempre, cerca de um metro e oitenta de altura, por sessenta centímetros de largura e cinquenta de profundidade, além de um número de ordem localizado em cima da porta. Nele teriam de caber todas as posses do jovem militar (relativamente poucas em valor monetário, mas muitas em quantidade física), que disputavam entre si um lugar definitivo e confortável naquele espaço tão pequeno.
Dentro dos armários não havia gavetas, mas, sim, prateleiras onde os uniformes militares e as roupas civis deveriam ficar, todas limpas e bem arrumadas. A arrumação era fundamental para que coubesse tudo em tão reduzido espaço.
Na prateleira de cima, a primeira delas, costumavam ficar os quepes e os gorros (ou casquetes), as platinas (ombreiras ou divisas) e o capacete de fibra. Na prateleira de baixo (a segunda e que era maior do que as demais), ficavam pendurados em um travessão, o uniforme de passeio, a japona, o terno civil, algum casaco civil, camisas civis e camisas de manga comprida usadas com o uniforme externo. Na terceira prateleira ficavam as camisas militares de manga curta, as camisetas e os calções de ginástica, bem como as sungas de natação. Na quarta ficavam as meias, as cuecas, as blusas e ceroulas, as toalhas de banho e de rosto, como também os pijamas. Na quinta e última prateleira ficavam as sapatilhas de ginástica, os borzeguins, a bota preta, o sapato preto do uniforme externo e o sapato de uso civil. Na porta dos armários existiam dois ou três compartimentos onde eram guardadas as escovas de dente, a pasta, o sabonete, o papel higiênico, a graxa de sapatos, a escova de polir, as insígnias e a latinha de Kaol (polidor de fivelas). Na porta existia, ainda, um local para pendurar os cintos, cinturões e gravatas do uniforme externo.
Basicamente, em tudo isto se constituía, oficialmente, o armário de um militar no meu tempo. Entretanto, extraoficialmente, os armários comportavam alguns outros itens: as fotos de familiares, de namoradas, de mulheres nuas, os maços de cigarros, os talheres e canecas emprestados do rancho, as latas de doce recebidas de casa e enviadas pelas mães, os pacotes de biscoito, as cartas de parentes e das namoradas, etc.
Alguns veteranos possuíam dois ou, até mesmo, três armários.
Aqueles militares que eram desligados e aqueles que pediam seu desligamento, por alguma razão particular, durante o ano letivo, tinham de desocupar os armários e entregá-los de volta. Estes armários vagos, logo em seguida, seriam ocupados por alguns veteranos ‘mais espertos’, que os utilizavam para desafogar o armário original.
As camas que os militares possuíam (também de madeira ou de metal, como os armários) deveriam ser impecavelmente arrumadas todas as manhãs. Um lençol colocado sobre o colchão, um cobertor sobre o lençol, uma colcha sobre o cobertor e outro cobertor arrumado aos pés da cama. A revista de camas era feita pelo oficial de dia, que anotava aquelas mal arrumadas para uma eventual punição dos seus respectivos ocupantes. Nas cabeceiras das camas de todos os militares estavam presentes os mesmos números de ordem que constavam nas portas dos armários. Naquelas camas, logo após o toque do silêncio (executado muitas vezes com maestria pelo coração do corneteiro e apenas soprado pela sua boca, tal era a emoção que conseguia transmitir àquele toque), sonhávamos com as nossas namoradas, com os nossos futuros, com as nossas mães, pais e irmãos. Daquelas camas teimávamos em não querer sair nos dias frios de inverno. Naquelas camas ressonávamos noite adentro, sonhando com batalhas e combates, sob os olhares atentos do plantão da hora que, em algumas ocasiões, também ressonava em seu posto.
Aquela era a nossa verdadeira casa, onde tínhamos aquilo tudo de que necessitávamos como jovens: um armário, uma cama, uma namorada e dezenas de amigos. Quem dera que a vida de todos nós continuasse eternamente assim, sem sofrimentos, sem mortes, sem desilusões, sem traições, sem desavenças. Quem dera que continuássemos, para sempre, acreditando nos valores morais e éticos que ali aprendíamos e que passávamos a cultuar como militares ou como civis (após deixar a caserna), pelo resto de nossas vidas, palco de tantos sacrifícios e abnegações; porém, por outro lado, de tantas alegrias e felicidades. Quem dera que a vida não tivesse se encarregado de nos mostrar que muitos seres humanos não balizam suas existências por aqueles valores que nos foram ensinados a cultuar e a cultivar na vida militar (tais como a coragem, a lealdade, a honestidade, a justiça, a dignidade, o patriotismo, etc.), fazendo com que, em muitas ocasiões, nos sentíssemos como verdadeiras ilhas em um oceano de vícios e de más intenções.
Infelizmente, muitos daqueles nossos companheiros de alojamento tiveram suas existências abreviadas, seja desempenhando missões como militares, seja em suas atividades na vida civil. Entretanto, resta-nos sempre o consolo de saber que não convivemos todos juntos no período mais importante de nossas vidas, por um simples e desarrazoado acaso; já que, segundo alguns filósofos e religiosos, este não existe. As amizades surgidas e consolidadas na vida militar serão, certamente, eternas (se não quando ainda encarnados, ao menos quando já desencarnados). Os nossos espíritos de companheiros de caserna (estou plenamente convencido disto), para sempre se reconhecerão, seja em outras existências, seja em outras dimensões ou planos de existência, conforme a crença de cada um. Acredito que estes meus sentimentos sejam comungados por todos aqueles que passaram por alguma  Organização Militar brasileira, mesmo que por apenas alguns meses; bem como, sejam sentimentos também reconhecidos e esposados por qualquer militar ou ex-militar, seja de qualquer país do mundo. Ao relembrar aqueles tempos de incrível felicidade em que o mundo me pertencia, quando ainda desconhecia o que o destino me reservava e podia contar com meus pais e irmãos ao lado, me vejo tomado pela emoção e, com lágrimas nos olhos, agradeço ao Criador a graça que me proporcionou de ter vivido a vida que vivi.

http://bandao70.blogspot.com/2014/11/meu-querido-armario-minha-amada-cama.html